Há mais de 32 anos Garrincha fazia último jogo de sua vida
Em Planaltina, em 1982, cercado pelo povo, o último jogo do lendário Mané Garrincha.
Em Planaltina, em 1982, cercado pelo povo, o último jogo do lendário Mané Garrincha.
O Esporte Espetacular foi até o Distrito Federal conhecer os personagens que cercam o último jogo do atacante Mané Garrincha.
Já padecendo dos males do alcoolismo, o ex-ponta-direita bicampeão do mundo foi ao Centro-Oeste brasileiro para jogar sua derradeira partida por um cachê de cerca de 800 dólares, hoje menos de R$ 1.900,00 reais.
Estádio lotado
O estádio Adonir Guimarães, em Planaltina, recebeu mais de 12 mil pessoas que viram o Anjo das Pernas Tortas ser apenas sombra do mítico ponta destruidor de defesas de outrora.
Foi a última aparição de Mané em um gramado. Um mês depois, morreu sozinho em um hospital no Rio de Janeiro.
O jogo foi organizado em prol de Garrincha por seu amigo Manoel Esperidião. Conhecido como Manoelzinho, o ex-atacante do América, organizou a partida-exibição para que Mané ganhasse dinheiro e conhecesse melhor o futebol local, já que falava eventualmente em trabalhar como treinador na capital federal, o que acabaria não acontecendo.
Sabia que bebia
A chegada de Garrincha ao aeroporto de Brasília mostrou que a fama do jogador ainda era grande. Torcedores e imprensa o aguardavam.
O ex-jogador revelou que há muito não jogava futebol e deu a seguinte declaração ao ser perguntado se estava com muita vontade de bater uma bolinha:
- “É... depois de quatro meses que eu não jogava futebol, né? Eu tive a obrigação de fazer uns exames rigorosos. Então, graças a Deus, foi tudo positivo. Quando o Manoelzinho me telefonava, eu dava uns piques no quarto para ver se estava bem. As pernas me doíam, né? Se (a bola) vier para perto de mim, vai sair alguma coisa! (risos), afirmava Mané.
Manoelzinho, que hoje é presidente da do Sindicato dos Atletas Profissionais de Brasília, guarda várias relíquias da partida como as camisas e chuteiras que Mané usou, além da súmula do jogo.
“Garrincha era um gênio! Eu liguei para ele e falei: ‘Tu quer vir?’. Ele falou: ‘Vou, compadre!’. Ele dizia que não bebia tanto, era o povo que falava demais, mas eu sabia que ele bebia, né?”, conta Manoelzinho.
Natal de 1982
A partida foi no Natal de 1982. Naquele 25 de dezembro, um sábado chuvoso, jogaram o time amador local do Londrina e uma Seleção da AGAP-DF - Associação Garantia ao Atleta Profissiona.
O jogador conhecido como Alegria do Povo jogou com a camisa azul e branca do Londrina, uniforme similar ao seu homônimo paranaense, ficou em campo por 60 minutos e mesmo com a marcação frouxa pouco conseguiu fazer.
Marcelinho, da Agap, foi o último marcador de Garrincha. Conta que sabia que seu papel seria de coadjuvante na festa e lembra um pedido indiscreto de Manoelzinho.
Fazendo cena
“Ele fez pedido por um pênalti. E ele falou: ‘Marcelo, faz um pênalti nele para ele fazer um gol!’. Ele trouxe uma bola dominada e, nessa bola, ele vinha gingando. E era muito fácil poder tomar a bola, mas, aí, eu fiquei recuando, recuando e fazendo um pouco de cena com ele’.
Marcelinho não teve coragem de fazer o pênalti. Restou, então, a última chance: falta para Mané cobrar, na entrada da área. No gol, Paulo Vítor, que viria a ser tricampeão Estadual (1983-84-85) e campeão Brasileiro pelo Fluminense, em 1984.
Deixa passar
“Eu estava passando férias em Brasília e recebi um convite do Manoelzinho. Lembro que algumas pessoas atrás do gol diziam: ‘Deixa passar, deixa passar’, mas não tinha como deixar passar, foi muito em cima e veio devagar. Acabei defendendo”, lembra.
“Logo em seguida, Garrincha saiu do jogo. Para mim seria realmente uma honra se eu pudesse falar isso para ele. Bate aquela falta que eu deixaria você fazer o gol”, recorda o ex-goleiro Paulo Vítor.
Morreu menos de um mês
Manoelzinho se recorda que até brigou com Paulo Vítor por conta desse lance.
“Eu até discuti com Paulo, porque ele não deixou a bola entrar. Seria o último jogo e o último gol”, lamentou Manoelzinho.
No fim, a Seleção da Agap venceu pela contagem mínima. Mané perdeu seu último jogo e menos de um mês depois, em 20 de janeiro de 1983, morreu.
Muitos tentaram e não conseguiram, mas a cirrose, causada pelo álcool, parou o Anjo das Pernas Tortas.
Redação Futebol Bauru
02/03/2014.
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