Teixeira, após 23 anos de poder, deixa, enfim, a CBF

12/03/2012Mais Esportes

No futebol, como na vida, nada é eterno, assim Ricardo Teixeira, 64 anos, não é mais presidente da CBF - Confederação Brasileira de Futebol e do COL - Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014.

 

Em entrevista coletiva nesta segunda-feira, na sede da CBF no Rio de Janeiro, José Maria Marin, 79 anos, vice-presidente do Sudeste e mandatário em exercício após a licença médica de Teixeira na última semana, anunciou a renúncia de Teixeira que estava no cargo desde 1989.

 

Marin, que foi presidente da FPF entre 1982 e 1986, leu a carta de Teixeira em que o dirigente dizia: “Hoje, deixo definitivamente a presidência da CBF”.

 

No texto, o ex-presidente anuncia Marin, como seu substituto na CBF e no COL. Marin que também já foi governador do Estado de São Paulo, disse que ficará no comando da entidade até o final do mandato de Teixeira, em 2015, quando deverão ser feitas novas eleições.

 

Vice-presidente mais velho da CBF, Marin já foi jogador de futebol do São Paulo e até governador, substituindo Paulo Maluf por alguns meses no início dos anos 1980.

 

Mas o dirigente acabou famoso no mundo do futebol em janeiro deste ano, por ter colocado no bolso, uma das medalhas do título do Corinthians, na Copa São Paulo de Juniores. Ao assumir o cargo de Teixeira, Marin afirmou que não haverá mudanças na CBF.

 

Títulos e Brasil sede

Ex-genro de João Havelange, ex-presidente da CBD que antecedeu a CBF e ex-presidente da Fifa, Teixeira assumiu a CBF em 16 de janeiro de 1989.

 

Com ele no comando, a Seleção conquistou duas Copas do Mundo (1994 e 2002), três Copas das Confederações (1997, 2005 e 2009) e cinco Copas Américas (1989, 1997, 1999, 2004 e 2007).

 

O dirigente também criou a Copa do Brasil (1989) e transformou o Campeonato Brasileiro em disputa de pontos corridos, com turno e returno, a partir de 2003.

 

Sua maior vitória foi conquistada em 2007: liderou a candidatura do Brasil para ser sede da Copa do Mundo de 2014 e, logo em seguida, tornou-se presidente do COL.

 

Acusações

Antes do Carnaval, jornais e sites brasileiros passaram a divulgar que Teixeira deixaria o poder em breve. A esposa e a filha mais nova viajaram para Miami, nos Estados Unidos, assim como o dirigente, o que aumentou a especulação.

 

As notícias sobre a possível saída de Teixeira aumentaram com as denúncias da imprensa internacional sobre o envolvimento em escândalos de corrupção da Fifa, onde é membro do Comitê Executivo.

 

O nome de Teixeira foi envolvido em uma denúncia da TV inglesa BBC, que apontou como um dos que teriam recebido comissões da agência de marketing ISL, extinta em 2001 por falência.

 

Contratos lucrativos

Por causa dessas relações, a ISL teria obtido lucrativos contratos de patrocínio e de direitos de televisão com a Fifa. No Brasil, a Polícia Federal chegou a instalar inquérito para apurar a suposta lavagem de dinheiro e evasão de divisas do presidente da CBF.

 

Desafeto de Teixeira, o presidente da Fifa, o suíço Joseph Blatter, prometeu em outubro de 2011 que tornaria público os arquivos do “Caso ISL”. Contudo, por questões legais, a promessa ainda não foi cumprida.

 

No Brasil, Teixeira também virou alvo de acusações sobre o envolvimento com a empresa Ailanto, responsável pela organização do jogo amistoso em Brasília (DF), entre Brasil e Portugal, em 2008 e que recebeu R$ 9 milhões de reais do governo do Distrito Federal.

 

A Polícia Civil da capital federal abriu inquérito para investigar suposto desvio de dinheiro público. A Ailanto tem como sócio o presidente do Barcelona, da Espanha, Sandro Rosell, um dos melhores amigos de Teixeira.

 

A vida de Teixeira

1947 - Nasce em 20 de junho, na cidade de Carlos Chagas, em Minas Gerais.

 

Anos 50 - Muda-se para o Rio de Janeiro, após ter sua criação iniciada em Belo Horizonte. Estuda no colégio Santo Inácio. Defende a equipe de vôlei do Botafogo.

 

Anos 60 - Ingressa na faculdade de Direito, que cursa até o quarto ano. Passa a trabalhar no mercado financeiro. Conhece Lúcia Havelange, filha de João Havelange.

 

Anos 70 - Casa com Lúcia Havelange e tem três filhos com ela.

 

1989 - Em 16 de janeiro, é eleito presidente da CBF. Na disputa, vence Nabi Abi Chedid, ex-deputado estadual e presidente da FPF.

 

É o sucessor de Octávio Pinto Guimarães na entidade. Recebe um órgão falido, às vésperas da disputa da Copa do Mundo. Com Sebastião Lazaroni de técnico, ganha a Copa América. Nasce a Copa do Brasil.

 

1990 - Na tentativa de dar saúde financeira à CBF, investe em contrato de patrocínio com a Pepsi e mantém a Topper, que vestiu a Seleção nas Copa de 1982 e 1986.

 

Vê nascer uma crise: em foto oficial, jogadores tampam a marca da fábrica de refrigerantes. Na Copa do Mundo, Seleção tem campanha medíocre: é eliminada pela Argentina nas oitavas de final.

 

Segundo mandato

1991 - Aposta em Paulo Roberto Falcão como treinador da Seleção. Resultados não são bons, e Teixeira logo muda a escolha para Carlos Alberto Parreira. Brasil fica na segunda colocação na Copa América.

 

1992 - Toma posse em segundo mandato na CBF.

 

1994 - Aposta de Teixeira em Parreira dá certo, e Brasil é campeão do mundo nos Estados Unidos. Com cinco anos no comando da CBF, dirigente faz futebol brasileiro quebrar jejum de 24 anos.

 

No retorno da delegação, se envolve em polêmica. É acusado de forçar a liberação da mercadoria trazida do exterior sem pagamento de impostos, em avião lotado de eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos.

 

Nega que tenha trazido três chopeiras na bagagem para um restaurante que possui no Rio de Janeiro. O processo foi arquivado 17 anos depois de iniciado.

 

Separação

1995 - Com Zagallo de técnico, vê o Brasil ser vice-campeão da Copa América.

 

1997 - Separa-se de Lúcia Havelange. Automaticamente, vê a relação com o pai dela interrompida. Tem relacionamento com a socialite Narcisa Tamborideguy.

 

Assina contrato de patrocínio com a Nike, que tinha como diretor o atual presidente do Barcelona, Sandro Rosell. Afasta Ives Mendes, então presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, acusado de corrupção.

 

1998 - Volta a ver o Brasil em uma final de Copa do Mundo, mas desta vez com derrota. Após convulsão de Ronaldo, Seleção leva 3 a 0 da França.

 

Vanderlei Luxemburgo é escolhido como novo treinador. Teixeira tem trégua na relação com Zico, convidado para chefiar a delegação no Mundial. Ao cavalgar, sofre acidente, passa por operação e recebe uma placa de ferro na perna.

 

Demite Luxemburgo

1999 - Aumenta o número de participantes da Copa do Brasil. Recebe homenagem da CBF, mas sem a presença de Havelange, ainda distante dele. Vê Brasil ser campeão da Copa América.

 

2000 - Treinado por Vanderlei Luxemburgo, Brasil cai para Camarões nas Olimpíadas. Treinador se envolve em polêmicas fora de campo e é demitido por Teixeira. Aposta em Emerson Leão como sucessor.

 

2001 - É um dos alvos da CPI do Futebol, no Senado, e da CPI da Nike, na Câmara dos Deputados. Aposta em Luiz Felipe Scolari como treinador da Seleção.

 

CPI do Senado pede indiciamento de Teixeira por evasão de divisas, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Justiça abre processos, e dirigente é absolvido das acusações.

 

Campeão invicto

2002 - Brasil é campeão invicto da Copa do Mundo.

 

2003 - Campeonato Brasileiro passa a ser disputado em pontos corridos. Carlos Alberto Parreira é confirmado como novo técnico da Seleção. Brasil cai na primeira fase da Copa das Confederações.

 

Teixeira casa com Ana Carolina Wigand, 30 anos mais jovem que ele.

 

2004 - Seleção Brasileira vai jogar no Haiti. Ação aproxima Ricardo Teixeira de Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente da República. Equipe nacional é campeã da Copa América, com vitória sobre a Argentina nos pênaltis.

 

2005 - Campeonato Brasileiro vive escândalo na arbitragem, com 11 jogos anulados após a descoberta de esquema de apostas envolvendo o árbitro Edílson Pereira de Carvalho.

 

CBF deixa situação a cargo do STJD. Corinthians é campeão, e Internacional ameaça levar o caso à Fifa, mas, nos bastidores, é convencido a desistir. Seleção é campeã da Copa das Confederações, goleando a Argentina na final.

 

Atletas acima do peso

2006 - Brasil fracassa na Copa do Mundo da Alemanha. Com atletas acima do peso e festa da torcida na preparação em Wegis, na Suíça, sonho do hexa termina nas quartas de final, com nova derrota para a França.

 

Carlos Alberto Parreira deixa o comando e Teixeira aposta em Dunga para mudar a imagem da Seleção.

 

2007 - Brasil é confirmado como país-sede da Copa do Mundo de 2014.

 

2009 - É acusado de envolvimento em irregularidades no amistoso entre Brasil e Portugal, no Distrito Federal, um ano antes. A Ailanto, uma das empresas envolvidas no evento, é acusada de superfaturamento.

 

Cai nas 4ªs de final

2010 - Brasil cai para a Holanda nas quartas de final da Copa do Mundo da África do Sul. Incomodado com a postura de Dunga, mais fechado do que os treinadores anteriores, Teixeira decide mudar novamente o comando da Seleção.

 

Tenta Muricy Ramalho, que fica no Fluminense, e então aposta em Mano Menezes. CBF reconhece títulos da Taça Brasil e do Roberto Gomes Pedroza como conquistas de mesmo peso do Campeonato Brasileiro.

 

2011 - Emissora britânica BBC acusa Ricardo Teixeira de receber propina da ISL, empresa de marketing já falida. Dirigente rebate acusações.

 

Ronaldo é convidado para integrar o COL, no qual Joana Havelange, filha do presidente da CBF, é diretora-executiva.

 

Teixeira é internado, como consequência de uma diverticulite -inflamação no intestino grosso.

 

Entrevista polêmica

Entrevista à revista Piauí gera polêmica por causa de declarações sobre imprensa e desafetos. Em dezembro, Joseph Blatter, presidente da Fifa, anuncia que o brasileiro pediu licença do Comitê Executivo da Fifa e do COL.

 

2012 - Secretário-geral da Fifa, o francês Jérôme Valcke viaja ao Brasil para visitar algumas obras de 2014. Aldo Rebelo, ministro do Esporte, e Ronaldo acompanham o dirigente, mas Teixeira não aparece.

 

Esposa e filha se mudam para Miami e parte da imprensa passa a noticiar sua saída da CBF. Após licença médica anunciada em 9 de março, Ricardo Teixeira deixa as presidências da CBF e do COL três dias depois.

 

Redação Futebol Bauru

www.futebolbauru.com.br

12/03/2012.

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